  VEJA Roberto Pompeu de Toledo 18/02/04 "Pronuncia-se Tuh-ray-za. " Assim a revista Time ensinou a seus leitores como dizer o nome da mulher do senador John Kerry, o provável adversário de George W. Bush nas eleições presidenciais americanas deste ano. Sigamos as instruções da revista. O "tuh" da primeira sílaba, na boca de um americano, soa mais ou menos como "tã". O "ray" da segunda equivale a "rrrrei", pronunciado com aquele "r" inglês que rola na língua antes de dar lugar à vogal que o acompanha.
"Za" é "za" mesmo. Temos então que o nome da referida senhora deve ser pronunciado Tãrrrreiza. Vá lá: aceite-se, tendo em vista as limitações da língua e do palato de um americano. Mas nós outros sabemos que não é bem assim. O nome dela é Teresa. E Teresa é Teresa, três singelas sílabas que devem ser entoadas sem medo, sem "ãs" ou "eis" a entravar-lhes o fluxo, leves, alegres e soltas como bandeiras ao vento. A Teresa em questão é uma grande figura. Talvez mais ainda que o marido, é a grande personagem da atual temporada eleitoral – uma personagem cuja história, entre outros lances marcantes, tem Moçambique e molho de ketchup em seu caminho. Teresa nasceu Maria Teresa Thierstein Simões Ferreira, em Lourenço Marques, cidade que seria rebatizada Maputo quando o país de que é capital, Moçambique, se tornou independente. Observe-se de passagem, para atentar agora em aspectos de grafia, que na imprensa americana Simões é Simoes e Lourenço é Lourenco, além de Moçambique ser Mozambique. Cedilha e til não fazem parte do repertório local, o que impede a apreciação de Teresa em toda a sua justa e complexa dimensão.
Só quem tem til no nome e nasceu num lugar com cedilha sabe o que isso significa. Teresa nasceu numa rica família portuguesa, e cresceu em meio aos impulsos contraditórios de uma confortável vida entre os colonos brancos, de um lado, e a penúria da população circundante, de outro. Estudou na África do Sul e na Suíça. Na Escola de Intérpretes de Genebra, foi colega de Kofi Annan, hoje secretário-geral das Nações Unidas. Mas esse não foi seu encontro mais importante. Maior foi o encontro com o ketchup, ou melhor, com John Heinz, dono do ketchup, dos picles e da maionese que levam seu nome.
Teresa, que fala cinco línguas e queria ser intérprete da ONU, acabou no mundo das conservas, que no caso da marca Heinz também não deixam de ser multinacionais, e apresentadas em variados idiomas: casou-se com seu proprietário. Ei-la milionária. E, logo, ei-la também mulher de senador. John Heinz, eleito pelo Estado da Pensilvânia, exerceu o mandato até morrer num desastre de avião, em 1991. Atenção para o lance seguinte. Não bastassem o nome Teresa, Moçambique, a cedilha e o til, agora é o Rio de Janeiro que entra nesta história.
Na Eco 92, a conferência ecológica realizada na capital fluminense em 1992, Teresa se aproxima do segundo senador, e segundo John, da sua vida. Senador John Kerry. Militante ecológica, ela veio à conferência como representante de ONGs americanas. Kerry veio como político interessado em questões ambientais. Três anos depois, casaram-se. Não se imagine Teresa no papel de mulherzinha de político, como Laura Bush se esforça para alardear que não é, mas é. Segundo alguns próximos, ela foge de tal modelo ainda mais do que Hillary Clinton.
Sua independência calça-se, em primeiro lugar, numa fortuna de 500 milhões de dólares, herança do primeiro marido, em segundo em sua ativa gestão à frente de uma das maiores organizações filantrópicas dos Estados Unidos, os fundos Heinz destinados a causas sociais, calculados em 2 bilhões de dólares, e em terceiro lugar em sua personalidade forte.
Teresa tem opiniões. É católica e a favor do aborto. Defende com paixão causas ecológicas, educacionais e assistenciais. E, aos 65 anos, além de bonita e divertida, conserva-se atenta aos truques femininos. Aplica Botox, conforme admite sem vacilar. E numa entrevista, quando lhe perguntaram o que faria se o marido a traísse, respondeu que não o mataria. Não. "Eu o mutilaria. " Já se vê que John Kerry pensará duas vezes, caso uma Monica Lewinsky venha a cruzar-lhe o caminho. Sobre o governo Bush, ela o qualifica como "o mais cínico, o mais venal e o mais maquiavélico" que lhe foi dado conhecer, em seus 32 anos de Washington.
Teresa, ou melhor, John Kerry, é mais do que um candidato. É o chefe de um movimento de libertação. O agente da luz em quem estão depositadas as esperanças de destronar o cavaleiro das trevas que se entocou na Casa Branca. Tanto melhor que, a seu lado, tenha Teresa. Para nós, em caso de vitória, isso significará uma primeira-dama que fala português. É a língua do "ão" forçando a porta da Casa Branca. O til e a cedilha pedindo passagem. De quebra, é o Rio de Janeiro a figurar, na memória do casal presidencial, como berço de sua história de amor. Alguma coisa isso deve valer. Sem falar que os povos de língua portuguesa seremos os detentores da verdade sagrada, indivisível e indiscutível de que Teresa é Teresa, não Tuhrayza. 
